27 fevereiro 2014

The great leap backwards

Waiting for the Great Leap Fowards by Billy Bragg on Grooveshark
O mundo está avançando numa nova Idade das Trevas. Todas as forças reversas encontram-se em franca expansão enquanto nós nos debatemos em vão no Facebook. Acredito que o mundo progrida; vá em direção a algo melhor. Entretanto este movimento não é constante - a história dá dois passos para frente, um passo para trás. Tenho a sensação de que estamos prestes a dar o segundo passo para trás, com chance de um impulso para ainda um terceiro passo. Se você não está na Venezuela, Haiti, Síria, Sudão, República Centro Africana, Uganda, Ucrânia, Tailândia ou Coréia do Norte neste momento, dê-se por satisfeito. Pense que tudo poderia ser muito pior. Eu, por vezes, tropeço e caio em mim mesmo e me pergunto How the fuck could I end up in Vietnam? Sim, porque este é um destino que eu jamais havia cogitado em estar na minha vida, quanto mais viver aqui. Adeus, circuito Elizabeth Arden. Mas foi a coisa certa no momento certo e não me arrependo nem uma fração de segundo de estar aqui. Vivo neste caos de motocicletas, lendo outdoors que não entendo nada, ouvindo conversas que não entendo nada. Um país pacífico este Vietnam, um comunismo que disfarça o capitalismo ou vice-versa, e um povo que assimila tudo placidamente. Mas são os loucos mansos que mais me preocupam porque surtam nos momentos mais inesperados para, em seguida, acalmarem-se.

18 fevereiro 2014

Salve-me

Save Me by Aimee Mann on Grooveshark
Levei uma porrada lendo Q&A do Guardian com Tippi Hedren. Uma pergunta inocente para dar um tom cômico resultou numa resposta dolorosa. 
What is the worst thing anyone's said to you? 
"She'll never be happy."
Uma vez ouvi algo semelhante ao meu respeito - não as mesmas palavras ou adjetivos - mas minha vida não passou incólume a tal. Garantindo um certo distanciamento crítico, sim porque é melhor não fazer nada enquanto no olho do furacão, cheguei a algumas conclusões básicas. Que gente pode ser rancorosa. Que eu olhei para o meu mundinho e tive a certeza de que ele me fazia feliz. Que eu percebi ainda tinha um mundão ali do lado que podia me deixar mais feliz ainda. E, que se não deixasse, azar. Então agradeço ao rancor mascado de um lado para o outro numa boca de aparelho de um pobre diabo. Me ajudou pra caralho para eu estar aqui em TPHCM agora.

15 fevereiro 2014

2014, meu ano vietnamita

Me And Mr. Jones by Amy Winehouse on Grooveshark
A língua local ainda me é um desafio. Aprendi a ler algumas palavras. Consigo entender pedaços de uma conversa mas falar, colocar para fora com todas as letras com a minha voz, me é difícil. Imagine duas pessoas tentando se comunicar em inglês que não é a língua-mãe de nenhuma das duas. Imagine duas pessoas cujas línguas têm estruturas tão particulares e formadas tão isoladamente que quiçá pouco têm em comum. Imagine duas culturas opostas pela cartografia. Imagine duas pessoas diferentes. Imagine alguém que não fala. Imagine a minha mente ávida por respostas, por entendimentos, esclarecimentos, iluminações. Imagine a minha cara de interrogação. Imagine a minha frustração. Por isso eu resolvi que 2014 será meu ano vietnamita. Será um ano em que me dedicarei aos assuntos domésticos, a visitar outros locais neste país, a conhecer mais pessoas locais. Quem sabe eu aprenda a língua, e entenda. Nem que seja por osmose.

17 agosto 2013

Fuga deste mundo louco

Mad World by Gary Jules on Grooveshark

Exilado, acompanhei o gigante adormecido brasileiro levantar para dar a mijada da noite e depois voltar para os braços de Morfeu. Acordados ficaram apenas uns zumbis insistindo em quebrar tudo ao redor em busca de alguns cérebros como alimento. Artigos de escassa disponibilidade tais cérebros, os zumbis morrerrão logo à míngua. Esta agitação brasileira trouxe o melhor de muitos, mas chamam atenção  discursos anacrônicos daqui e dali - autoria principalmente de gente rewind. Surpreende uma juventude de suposta vanguarda cujo discurso remete ao marxismo soviético, que já era um absurdo na época da guerra fria. Agora, torna-se apenas risível. As múmias no Egito também agora reviram em seus sarcófagos e espalham a maldição sobre as areias das praças, das mesquitas, das igrejas coptas. Ter um ditador militar durante décadas a fio forja mesmo uma sociedade. Fica difícil de se livrar deste rótulo, fica fácil misturar tudo num pote e eleger a religião para tratar do Estado. Mas é a delícia e a tragédia da eleição: eleger indivíduos que nos representem. Como Macaco Tião, Tiririca, Feliciano - queiram ou não, eles representam a nossa sociedade. A tentação de extirpar estes representantes sem qualquer motivo justo é golpe. Nada de revolução - é golpismo mesmo. No discurso, na ação, no manifesto. E nem manifesto de linha comunista é. É golpismo mesmo, daqueles de republiqueta de bananas latino americana. Gente rewind dá golpe enquanto gente fastforward vota. Cérebrosparazumbis: estes fogem e escondem neste mundo louco. Há 40 anos atrás, um vietnamita se cansou da guerra, se cansou da perda do seu filho e esposa, e se foi. Levou consigo seu filho de 1 ano. Que esperanças ele poderia ter? Se o mundo não mudasse, ele não precisaria expor seu filho àquela loucura. O mundo se esqueceu deles e seguiu em frente. Enquanto isso, eles criaram seu mundo particular e rudimentar de casa na árvore, de roupas de palha de ferramentas de pedra. E o mundo os redescobriu e se maravilhou como se descobrisse uma tribo isolada no meio da remota selva amazônica. Debilitados, eles se chocaram, aceitaram ajuda, foram resgatados, hospitalizados, lavados, vestidos. Dias se passaram. Eles querem voltar para a selva.



11 agosto 2013

Atenção para as regras do caos

Beware Of The Boys (Mundian To Bach Ke) by Panjabi MC on Grooveshark

Todos aqui têm o direito de ir e vir no trânsito. Isto significa que não importa muito a contra-mão ou o cruzamento ou o sinal vermelho. Desde que o indivíduo possa ir do ponto A para o ponto B, outros detalhes mostram-se insignificantes. Hoje pequei o taxi para ir até o centro da cidade, o que significa aproximadamente uns 20 minutos de jornada, nunca acima de 60 km/h.  Eu tenho vontade de avisar para o taxista que vou garantir 10% a mais se ele fizer o trajeto todo sem buzinar - mas eu sempre esqueço. E aí eu tenho que aguentar uma estressante jornada de sonoros avisos. As primeiras esquinas são negociadas reduzindo a velocidade e entrando. Não há aquela tradicional paradinha, seta, olhar para os lados. É simplesmente fui. Ônibus públicos passam pelo nosso lado direito em surpreendente velocidade e buzinando ameaçadoramente, comprimindo os motociclistas. As travessias são divertidas - o motorista embica o carro na outra pista e vai aos poucos forçando sua passagem. Os motoristas de motos, carros, caminhões no sentido inverso vão apenas arrumando maneiras de desviarem do carro. Isto é relativamente fácil porque ninguém trafega em velocidade alta, de qualquer forma. É o universo dos near-misses. Possivelmente herdadas dos urbanistas franceses, as rotatórias podem ser chocantes, divertidas, ameaçadoras, intransponíveis, arriscadas, dependendo do observador. Foi a mesma situação que vi logo que cheguei em Paris pela primeira vez e peguei a rotatória em torno do Arco do Triunfo - eu = medo + 100 Peugeots. Aqui é convertido em eu = medo + 1.000 scooters.  Rotatória é onde todos entram impune e simultaneamente forçando ligeiramente seus meios de transportes e depois, feliz e habilmente, saem em outro ponto. Sem nenhum choque, sem nenhuma violência, sem nenhuma briga. Todos sabem as regras do caos. 

03 agosto 2013

O sol enganador

Invisible Sun by The Police on Grooveshark
Gosto do dia. Gosto do sol. Gosto do calor gerado no corpo, faz-me sentir vivo. Aqui tenho que aproveitar o sol bem cedo ou muito pela tarde já que o meio do dia pode esturricar a gente. Durante estas horas é melhor estar protegido, numa sombra, sob uma camada de FPS30. Tem gente generosa que faz sombra para gente. Mal sabem se nos protegem ou se nos ofuscam, estes dois lados da mesma moeda. Na escuridão, sabemos, facilmente perde-se a si mesmo. Tem outro tanto de gente cautelosa que procura sombras para se proteger, para um conforto, ansiosa com o prospecto de queimar escaldar esturricar. Mal sabem que insolação pode ser efeito colateral de viver.

Foto: arquivo pessoal / Cape Town - Fev/2013

24 julho 2013

Risíveis casacos

A previsão do tempo é algo aborrecido aqui. Raro o dia em que a temperatura sai da faixa dos 25 aos 32ºC. Umidade - isto é o que dá o tempero. Fevereiro é o meu mês favorito, quando as brisas tornam as noites mais agradáveis e poder dormir com a janela aberta é uma benção. Abril é o inferno sobre a terra - o sol fica implacável e o mundo parece ficar mais incivilizado. A época de chuvas pra valer vai de fim de agosto até novembro e todas as tardes têm um temporal ou dois. Só que não há refresco e meia hora depois tudo está seco de novo na estufa/sauna. Depois a chuva desaparece até março ou abril. Desaparece mesmo, quase fazendo a gente esquecer que ela existe e dá até saudades. Mas aí vem abril de novo e o ciclo recomeça. Sempre achei que os humores são influenciados pelo estado do tempo. Tem o poder de nos potencializar ou drenar as energias. O aparelho de ar condicionado foi a melhor invenção do homem para este canto do mundo. Nivela as flutuações de temperatura para um nível civilizadamente mais baixo previamente estabelecido; nivela as flutuações do humor.  Julho 2013. Alto verão. E  bate uma canseira, um lazeira, um banzo. Estes últimos dias têm sido uma surpresa de constantes chuvas e um céu sempre cinza, com o calor mediano onipresente dos seus 24ºC. É tão absurdo quanto as pessoas que colocam seus casacos por causa deste frio fora de hora. Eu acho risível.

21 julho 2013

A tesoura do desejo

Por mais aventureira que uma pessoa possa ser, há um assunto em que ela se torna a mais tradicional, convencional, ortodoxa, repetitiva, avessa a qualquer mudança: a pessoa que corta o seu cabelo. É amedrontadora a perspectiva de um desconhecido adquirir o poder sobre algo que praticamente nos define. No meu caso, parece ser algo fácil - minhas madeixas estão mais para um corte à la Obama - mas pobres das mulheres. Muito bem - você vai mudar de cidade-país-continente, e aí? Sem chances de levar o seu personal hairstylist na mala. Foi assim com certa ansiedade que fui pela primeira vez cortar o cabelo, antecipando o desastre. Primeira dificuldade: como comunicar o que eu quero? Aí, apelo para o som, imagem, expressão corporal apontando para a maquininha e dizendo o número no meu rudimentar vietnamita. E entregar para Deus. Segundo minha avaliação, o resultado final foi que eu fiquei com um corte de cabelo daquele pronto para se alistar no exército no vietcong, OK, afinal estou no Vietnam. Depois de devidamente filiado ao cabelereiro, certificado com meu selo de aprovação, minha rotina era de menos de 30 minutos: entrar-buzzz-sair e ir para casa para o banho. Até o dia em que eu tinha um outro compromisso imediatamente em seguida e aceitei o adicional shampoo. Pensei que seria uma lavagem básica, mas não poderia estar mais errado. Deita-se numa maca com a cabeça no apoio de uma pia. E tudo começa: lavagem, shampoo, massagem na cabeça, mais creme, mais massagem na cabeça, massagem no pescoço, no rosto, no ombro, fatias de pepino geladinhas no rosto, mais massagens nos braços, nas mãos, mais massagem no rosto, mais shampoo, mais massagem na cabeça. Foi aí que descobri porque todos ficavam espantados quando eu dizia que não queria shampoo. Pois bem, cancelei meu compromisso porque já estava quase uma hora atrasado, mas mais relaxado. Tornei-me fã do shampoo e agora já reservo um bom tempo para a minha transformação em soldado.

18 julho 2013

Hey, you!

Eu gosto da imagem de um vulcão e sua cratera aberta e vulnerável e preenchida por um magma furioso, incandescente, em constante revolução, mas adormecido até que resolve cuspir brasas. Até que. Até que eu jogava conversava fora com meu amigo acupunturista coreano sobre os assuntos mais mundanos - animais domésticos, onde encontrar feijão preto, óculos. E pronto, foi jogada a centelha que começou o incêndio. Olhei-me no espelho e me incomodei por me ver usando os mesmos óculos que usava há cinco anos atrás. Voltei a usá-los porque, preguiçoso, não mandei consertar meu outro par mais recente. O desconforto foi maior porque a cara refletida com aqueles velhos óculos não representava o meu estado de ser no momento corrente. Era alguém que insistia em ficar no fim da festa enquanto os anfitriões queriam mesmo era ir dormir. Então era hora de partir, hora de mudar de cara, desapegar daquela uma de cincoanosatrás. Desapego. Hora de ir ao mắt kính, hora de ir à ótica. Fucei numas três sem grande sucesso, até entrar numa espaçosa loja cujo sortimento de modelos era grande. Imagine isto: eu era o único freguês naquela hora do dia. Passava meus olhos pelas vitrines, pelas bancadas. Tentei explicar para a atendente o que eu queria - tecnicamente, a minha cara de lua restringe as opções. Mas, mesmo se eu fosse fluente em vietnamita, como explicar que eu queria algo que se adequasse a mim, a esta pessoa, a este momento? Na impossibilidade de tal, fui para a tentativa e erro - experimentar e separar. Enquanto eu olhava num canto da loja, levei um susto quando ouvi um HEY, YOU! ameaçador em altos brados da atendente. Apressei-me e fui até ela para descobrir o que ela queria: mostrar-me um par para o qual eu disse não e voltei para a minha pesquisa, até que HEY, YOU! de novo. Nem me assustei e fui logo ver o que ela tinha. Um não, de novo, e nova pesquisa independente. HEY, YOU! Finalmente eu tive de rir. Até que encontramos por fim um denominador comum: havia achado o que eu queria - algo que se distanciava de cinco anos atrás, que se distanciava de três anos atrás, que estava mais para o ano atual. Fiz um novo exame de vista de gratis na própria ótica e os óculos foram entregues três horas e N chopps depois, prontinhos. O magma havia sido lançado na atmosfera, as cinzas se espalharam, atrasaram alguns vôos e mudaram a topografia. Esta era a nova realidade, tempo e espaço em harmonia.