12 agosto 2017

Dez graus a menos

Sabe, eu sou engenheiro. E eu tenho este estranho hábito de fazer bolo. É um hábito terapêutico que tenho há anos, mas que reforcei aqui no Vietnam. Quando sinto saudades, eu faço bolos. Enfim, pratico uma conversa comigo mesmo enquanto peneiro a farinha, acompanho os ovos sendo misturados e peso a manteiga. Sigo receitas com um fanatismo religioso. Faço exatamente o que está escrito lá, tanto que, quando leio uma receita que não consigo visualizar como as partes se encaixam num todo, eu a rejeito completamente. Tem que fazer algum sentido. Eu preciso fechar meus olhos e ver o filme do preparo passando na minha frente. Várias vezes fiz bolos e os deixei assando no mesmo tempo de forno para descobrir no fim que eles estavam overbaked. Inicialmente culpei a receita. Depois xinguei o forno - comprei até um termômetro para comprovar que a temperatura do marcador estava correta. Até que saquei que aquela seria a minha pitada mágica que ninguém havia explicitado. Ajustar a temperatura do forno para uns dez graus mais baixo. Enquanto fazia minha última batelada de cupcakes, fiquei matutando na tantas relações que eu segui usando um mesmo padrão desajustado e que me levaram ao mesmo fim. Então continuo nesta vida procurando os meus dez graus a menos.

24 julho 2017

Dos pleitos

Existem causas impossíveis. Há até santo para tal. Eu me pergunto o que move um indivíduo a empunhar uma bandeira por algo inatingível. Lembro-me de ler sobre manifestantes querendo o completo fim das armas nucleares. Cansa-me só de pensar. Se fosse um deles viveria eternamente frustrado pela inércia em relação ao meu pleito. 

Percebe o padrão?

E daí que eu fui para a Islândia. Demorou 30 anos para realizar a vontade. Tudo começou, como sempre, com uma pitada de curiosidade. Construi na minha mente uma Reykjavik. Embalei tudo com uma trilha sonora dos Sugarcubes. Mas era tudo tão distante e complicado que mantive uma distância segura da vontade sem perdê-la de vista. Até que o tempo encarregou-se de trazer coincidências que foram me dizendo, está chegando a hora. Sempre evitei meramente cogitar em ir no inverno e achava que não suportaria o frio até que um amigo da Indochina foi, viu e venceu. Então tá, né, se ele foi no inverno por que não poderia eu? Fiz meus primeiros planos para ver a Aurora Boreal, fui fechando tudo até que o tempo disse, não, ainda não. Superada a frustração, soube de mais um que havia ido. E eu respirando fundo para aguentar a paciência. Mas aí o destino conspira e me deixa em Copenhagen e eu falo, é hora de ir! Wanderlust! Vou encontrar aquela Reykjavik que eu imaginei, como um cenário de uma grande rave que não acabou bem. Apesar da frustração com o que vi na capital, a maravilha encontrava-se no resto de um país com um cenário de outra galáxia. Cada dia acordava cedo para o café da manhã e resmungava por colocar camadas e camadas de roupas para o verão islandês de 10ºC e pensar em tomar o ônibus de turismo e ficar incontáveis horas sentado na poltrona. Mas, na hora em que o maldito saía de Reykjavik e começavam a aparecer as colinas e o vapor entre as montanhas e o mar e os musgos e a lava solidificada, eu me perguntava que galáxia era aquela. Então era isso. O tempo me fez amadurecer para apreciar. 

I am leaving this harbour, giving urban a farewell. Its inhabitants seem to keen on God. I cannot stomach their rights and wrongs. I have lost my origin and I don't want to find it again. Whether sailing into nature's laws and be held by ocean's paws: wanderlust! Relentlessly craving wanderlust! Peel off the layers until we get to the core. Did I imagine it would be like this? Was it something like this I wished for? Or will I want more? Lust for comfort suffocates the soul. This relentless restlessness liberates me, sets me free. I feel at home whenever the unknown surrounds me. I receive its embrace aboard my floating house. Wanderlust! relentlessly craving wanderlust! Peel off the layers until we get to the core. Did I imagine it would be like this? Was it something like this I wished for? Or will I want more? Wanderlust! from island to island. Wanderlust! United in movement. Wonderful! I'm joined with you. Wanderlust! Can you spot a pattern? Relentlessly restless...


23 julho 2017

Velhos amigos

Dizem que velhosvelhosvelhos bons amigos são aqueles que se reencontram depois de muito tempo e continuam conversas do nada, como se tivessem se encontrado ontem. Não é um processo de resgate do que se passou, passando a limpo todas as mazelas que aconteceram enquanto distantes. Não. É um começo, uma indicação de futuro na primeira troca de palavras. O engate das engrenagens é celebrado na primeira risada, ou na primeira troca de olhares de soslaio que confirma a parceria no crime. Lembro-me de quando meus amigos me visitaram. A Sra J e família me visitou em Londres e passamos adoráveis semanas. Dei muitas risadas com a Srta R também. Partilhei locais especiais com o Sr W. Mas foi mesmo o Sr F que bateu todos os recordes, visitando em quase todos os cantos em que vivi, inclusive aqui em HCMC. Partilhamos muitas coisas, detalhes tão pequenos, e ele se foi, deixando-me com os olhos mais abertos do que nunca.

27 fevereiro 2014

The great leap backwards

Waiting for the Great Leap Fowards by Billy Bragg on Grooveshark
O mundo está avançando numa nova Idade das Trevas. Todas as forças reversas encontram-se em franca expansão enquanto nós nos debatemos em vão no Facebook. Acredito que o mundo progrida; vá em direção a algo melhor. Entretanto este movimento não é constante - a história dá dois passos para frente, um passo para trás. Tenho a sensação de que estamos prestes a dar o segundo passo para trás, com chance de um impulso para ainda um terceiro passo. Se você não está na Venezuela, Haiti, Síria, Sudão, República Centro Africana, Uganda, Ucrânia, Tailândia ou Coréia do Norte neste momento, dê-se por satisfeito. Pense que tudo poderia ser muito pior. Eu, por vezes, tropeço e caio em mim mesmo e me pergunto How the fuck could I end up in Vietnam? Sim, porque este é um destino que eu jamais havia cogitado em estar na minha vida, quanto mais viver aqui. Adeus, circuito Elizabeth Arden. Mas foi a coisa certa no momento certo e não me arrependo nem uma fração de segundo de estar aqui. Vivo neste caos de motocicletas, lendo outdoors que não entendo nada, ouvindo conversas que não entendo nada. Um país pacífico este Vietnam, um comunismo que disfarça o capitalismo ou vice-versa, e um povo que assimila tudo placidamente. Mas são os loucos mansos que mais me preocupam porque surtam nos momentos mais inesperados para, em seguida, acalmarem-se.

18 fevereiro 2014

Salve-me

Save Me by Aimee Mann on Grooveshark
Levei uma porrada lendo Q&A do Guardian com Tippi Hedren. Uma pergunta inocente para dar um tom cômico resultou numa resposta dolorosa. 
What is the worst thing anyone's said to you? 
"She'll never be happy."
Uma vez ouvi algo semelhante ao meu respeito - não as mesmas palavras ou adjetivos - mas minha vida não passou incólume a tal. Garantindo um certo distanciamento crítico, sim porque é melhor não fazer nada enquanto no olho do furacão, cheguei a algumas conclusões básicas. Que gente pode ser rancorosa. Que eu olhei para o meu mundinho e tive a certeza de que ele me fazia feliz. Que eu percebi ainda tinha um mundão ali do lado que podia me deixar mais feliz ainda. E, que se não deixasse, azar. Então agradeço ao rancor mascado de um lado para o outro numa boca de aparelho de um pobre diabo. Me ajudou pra caralho para eu estar aqui em TPHCM agora.

15 fevereiro 2014

2014, meu ano vietnamita

Me And Mr. Jones by Amy Winehouse on Grooveshark
A língua local ainda me é um desafio. Aprendi a ler algumas palavras. Consigo entender pedaços de uma conversa mas falar, colocar para fora com todas as letras com a minha voz, me é difícil. Imagine duas pessoas tentando se comunicar em inglês que não é a língua-mãe de nenhuma das duas. Imagine duas pessoas cujas línguas têm estruturas tão particulares e formadas tão isoladamente que quiçá pouco têm em comum. Imagine duas culturas opostas pela cartografia. Imagine duas pessoas diferentes. Imagine alguém que não fala. Imagine a minha mente ávida por respostas, por entendimentos, esclarecimentos, iluminações. Imagine a minha cara de interrogação. Imagine a minha frustração. Por isso eu resolvi que 2014 será meu ano vietnamita. Será um ano em que me dedicarei aos assuntos domésticos, a visitar outros locais neste país, a conhecer mais pessoas locais. Quem sabe eu aprenda a língua, e entenda. Nem que seja por osmose.

17 agosto 2013

Fuga deste mundo louco

Mad World by Gary Jules on Grooveshark

Exilado, acompanhei o gigante adormecido brasileiro levantar para dar a mijada da noite e depois voltar para os braços de Morfeu. Acordados ficaram apenas uns zumbis insistindo em quebrar tudo ao redor em busca de alguns cérebros como alimento. Artigos de escassa disponibilidade tais cérebros, os zumbis morrerrão logo à míngua. Esta agitação brasileira trouxe o melhor de muitos, mas chamam atenção  discursos anacrônicos daqui e dali - autoria principalmente de gente rewind. Surpreende uma juventude de suposta vanguarda cujo discurso remete ao marxismo soviético, que já era um absurdo na época da guerra fria. Agora, torna-se apenas risível. As múmias no Egito também agora reviram em seus sarcófagos e espalham a maldição sobre as areias das praças, das mesquitas, das igrejas coptas. Ter um ditador militar durante décadas a fio forja mesmo uma sociedade. Fica difícil de se livrar deste rótulo, fica fácil misturar tudo num pote e eleger a religião para tratar do Estado. Mas é a delícia e a tragédia da eleição: eleger indivíduos que nos representem. Como Macaco Tião, Tiririca, Feliciano - queiram ou não, eles representam a nossa sociedade. A tentação de extirpar estes representantes sem qualquer motivo justo é golpe. Nada de revolução - é golpismo mesmo. No discurso, na ação, no manifesto. E nem manifesto de linha comunista é. É golpismo mesmo, daqueles de republiqueta de bananas latino americana. Gente rewind dá golpe enquanto gente fastforward vota. Cérebrosparazumbis: estes fogem e escondem neste mundo louco. Há 40 anos atrás, um vietnamita se cansou da guerra, se cansou da perda do seu filho e esposa, e se foi. Levou consigo seu filho de 1 ano. Que esperanças ele poderia ter? Se o mundo não mudasse, ele não precisaria expor seu filho àquela loucura. O mundo se esqueceu deles e seguiu em frente. Enquanto isso, eles criaram seu mundo particular e rudimentar de casa na árvore, de roupas de palha de ferramentas de pedra. E o mundo os redescobriu e se maravilhou como se descobrisse uma tribo isolada no meio da remota selva amazônica. Debilitados, eles se chocaram, aceitaram ajuda, foram resgatados, hospitalizados, lavados, vestidos. Dias se passaram. Eles querem voltar para a selva.



11 agosto 2013

Atenção para as regras do caos

Beware Of The Boys (Mundian To Bach Ke) by Panjabi MC on Grooveshark

Todos aqui têm o direito de ir e vir no trânsito. Isto significa que não importa muito a contra-mão ou o cruzamento ou o sinal vermelho. Desde que o indivíduo possa ir do ponto A para o ponto B, outros detalhes mostram-se insignificantes. Hoje pequei o taxi para ir até o centro da cidade, o que significa aproximadamente uns 20 minutos de jornada, nunca acima de 60 km/h.  Eu tenho vontade de avisar para o taxista que vou garantir 10% a mais se ele fizer o trajeto todo sem buzinar - mas eu sempre esqueço. E aí eu tenho que aguentar uma estressante jornada de sonoros avisos. As primeiras esquinas são negociadas reduzindo a velocidade e entrando. Não há aquela tradicional paradinha, seta, olhar para os lados. É simplesmente fui. Ônibus públicos passam pelo nosso lado direito em surpreendente velocidade e buzinando ameaçadoramente, comprimindo os motociclistas. As travessias são divertidas - o motorista embica o carro na outra pista e vai aos poucos forçando sua passagem. Os motoristas de motos, carros, caminhões no sentido inverso vão apenas arrumando maneiras de desviarem do carro. Isto é relativamente fácil porque ninguém trafega em velocidade alta, de qualquer forma. É o universo dos near-misses. Possivelmente herdadas dos urbanistas franceses, as rotatórias podem ser chocantes, divertidas, ameaçadoras, intransponíveis, arriscadas, dependendo do observador. Foi a mesma situação que vi logo que cheguei em Paris pela primeira vez e peguei a rotatória em torno do Arco do Triunfo - eu = medo + 100 Peugeots. Aqui é convertido em eu = medo + 1.000 scooters.  Rotatória é onde todos entram impune e simultaneamente forçando ligeiramente seus meios de transportes e depois, feliz e habilmente, saem em outro ponto. Sem nenhum choque, sem nenhuma violência, sem nenhuma briga. Todos sabem as regras do caos. 

03 agosto 2013

O sol enganador

Invisible Sun by The Police on Grooveshark
Gosto do dia. Gosto do sol. Gosto do calor gerado no corpo, faz-me sentir vivo. Aqui tenho que aproveitar o sol bem cedo ou muito pela tarde já que o meio do dia pode esturricar a gente. Durante estas horas é melhor estar protegido, numa sombra, sob uma camada de FPS30. Tem gente generosa que faz sombra para gente. Mal sabem se nos protegem ou se nos ofuscam, estes dois lados da mesma moeda. Na escuridão, sabemos, facilmente perde-se a si mesmo. Tem outro tanto de gente cautelosa que procura sombras para se proteger, para um conforto, ansiosa com o prospecto de queimar escaldar esturricar. Mal sabem que insolação pode ser efeito colateral de viver.

Foto: arquivo pessoal / Cape Town - Fev/2013